O mercado financeiro reagiu com euforia à decisão do governo de privatizar a Eletrobras, mesmo sem maiores detalhes sobre o modelo de venda. Com a perspectiva de menor ingerência política na companhia, as ações ordinárias (com voto) da estatal dispararam 49,3%, para R$ 21,20, a maior alta diária da história da empresa. Em apenas um dia, a companhia ganhou R$ 9 bilhões em valor de mercado e passou a ser avaliada em R$ 29,3 bilhões. A valorização dos papéis da Eletrobras impulsionou a Bolsa: 49 das 58 ações do Ibovespa, índice de referência dos investidores, encerraram o pregão em alta, com destaque para o avanço de estatais. O Ibovespa subiu 2%, aos 70.011 pontos, maior patamar desde janeiro de 2011.
— Ninguém esperava o anúncio, mas é uma ótima sinalização, já que a empresa tem imensos problemas financeiros, e acaba acendendo a esperança de que o governo faça isso com outras estatais — disse Lucas Marins, analista da Ativa Investimentos.
Para André Rosenblit, diretor de Mercado de Capitais e Renda Variável do Santander, “os olhos dos investidores brilharam” com o anúncio porque querem “um controlador cujo foco esteja no lucro, não nos problemas estruturais do país”. O banco estimava que a ação chegaria a R$ 29 daqui a um ano, mas espera valorização maior com a privatização.
— Se as condições operacionais e de mercado forem perfeitas para a Eletrobras, sua ação tem potencial para valer até R$ 70 — disse Rosenblit. EXECUTIVOS VEEM INTENÇÃO DE REFORMAR SETOR Apesar das projeções, o cenário ainda é de incerteza. O modelo de venda ainda não está oficialmente definido. A tendência, porém, é que a empresa faça um lançamento de ações, que não seriam compradas pela União. Com os recursos, a empresa compraria de volta 14 usinas hidrelétricas, que tiveram seu controle transferido para a União em 2012 como resultado da medida provisória (MP) 579, que forçou a redução das contas de luz e jogou a companhia numa espiral de resultados negativos. Esta solução, ao contrário das demais em estudo, como venda de controle, permite que os recursos sejam usados para abater o rombo nas contas públicas em 2018, estimado em R$ 159 bilhões. Analistas do Bradesco BBI destacam que o governo tentará concluir a operação antes da eleição diante do quadro fiscal.
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou ontem que o governo ainda avalia a modelagem de venda, que tem previsão de arrecadação de R$ 20 bilhões. Meirelles evitou comentar se os recursos entrariam no caixa em 2017 ou 2018:
— Estamos agora trabalhando na modelagem do processo e fazendo avaliação de como será encaminhado tudo isso. Tão logo tenhamos números mais precisos e avaliações de mercado um pouco melhor concretizadas, aí vamos fazer o anúncio completo.
A analista Cristiane Spercel, da Moody’s, diz que a decisão suscita dúvidas sobre o apoio da União à companhia no futuro. “O plano do governo de privatizar a Eletrobras é negativo ao crédito, sobretudo porque introduz incerteza sobre em que medida o governo suportaria a Eletrobras em momentos de necessidades inesperadas. O plano cria distrações para a administração que podem atrapalhar outras iniciativas, incluindo a estratégia de reestruturação da companhia”, afirmou em nota.
Assim como o mercado financeiro, executivos do setor foram pegos de surpresa pela notícia, mas avaliam que a decisão do governo demonstra a intenção de fazer uma grande reforma na área.
— Ficou clara a vontade do governo de fazer uma intervenção estruturante no setor elétrico — afirmou o presidente da EDP Energias do Brasil, Miguel Setas, que destaca que ainda é cedo para avaliar a atratividade da Eletrobras.
Para José Luiz Alqueres, ex-presidente da Eletrobras, apesar de os chineses serem apontados como principais interessados, eles devem encontrar concorrência forte na Europa e nos EUA:
— O mundo inteiro vive uma situação de excesso de liquidez e falta de projetos de investimento que ofereçam retornos atrativos.
O ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, disse que os funcionários não serão prejudicados e passarão a ser “avaliados pela meritocracia”. O Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Energia do Rio de Janeiro e Região (Sintergia-RJ) informou que prepara uma greve nacional a partir do próximo mês. O Sindicato dos Engenheiros do Rio diz que fará atos contra a privatização. -BRASÍLIA E RIO- O ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, afirmou ontem que a privatização da Eletrobras deve levar, a médio prazo, a uma conta de luz mais barata com a saída da União do controle da estatal. Segundo ele, a privatização será concluída até o fim do primeiro semestre de 2018, ou seja, antes da eleição presidencial.
— Num primeiro momento, não muda nada para o consumidor. A partir da privatização, haverá redução dos custos da empresa e ganho de eficiência para, no futuro, ter uma tarifa para o consumidor final mais barata. Vai ter um cálculo sobre o impacto ao consumidor. Nas nossas contas, com a eficiência que vai ganhar a empresa, a nossa estimativa é que será uma conta de energia mais barata a médio prazo — disse o ministro, acrescentando que o nome Eletrobras também deve ser mantido.
Porém, de acordo com especialistas, a tendência é que o preço da conta de luz suba para o consumidor. Isso vai acontecer porque, com a privatização, as 14 usinas geridas pela Eletrobras sairão do chamado regime de cotas, criado em 2012 na medida provisória (MP) 579 no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. A medida forçou uma redução no valor da tarifa. De acordo com esse sistema, a Eletrobras é remunerada pela energia vendida a preços fixos, mas não absorve os riscos da falta de chuvas, por exemplo. Nesse modelo, o preço do megawatt/hora sai em torno de R$ 61, valor que não paga os custos dessa operação.
— A privatização vai aumentar o valor da tarifa. Os leilões das usinas Ilha Solteira e Jupiá (em novembro de 2015) tiveram megawatt/hora de cerca de R$ 123. Portanto, maior que o valor do regime de cotas. O valor atual de R$ 60 é insuficiente. Há muitas pressões de preços para as tarifas — destacou Ricardo Savoia, diretor da Thymos Energia. IMPACTO DA REGULAÇÃO O processo de “descotização” será feito por meio de uma medida provisória, que deve ser enviada pelo governo ao Congresso em setembro. Só após a aprovação dessa mudança é que a privatização deve ser concluída. Segundo especialistas, o governo também usará as contribuições da consulta pública 33, que prevê um novo marco regulatório para o setor de energia, com o fim do regime de cotas para todas as empresas que aderiram à MP 579.
Marcelo Davanzo, diretor financeiro da Safira Energia, o fim do regime de cotas vai aumentar o valor da tarifa. Ele cita o preço atual dos contratos de longo prazo no mercado livre, cujo megawatt/hora varia entre de R$ 150 e R$ 170. No caso do mercado de curto prazo (spot), o preço chega a cerca de R$ 450:
— A privatização é positiva, pois vai resolver problemas na companhia. Mas o fim do regime de cotas vai elevar o preço daqui para frente. Isso porque as empresas vão vender energia a preço de mercado e não com um valor fixo.
Sandro Cabral, professor de estratégia do Insper, afirma que a evolução dos preços vai depender da regulação.
— Os preços (na conta de luz) também dependem da regulação. Ainda que houvesse um enxugamento de custos, é difícil dizer. Custo é uma coisa; preço, outra. É preciso entender o que a regra vai permitir.
Olga Simbalista, presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), também avalia que o preço deve subir, mas pondera que é preciso esclarecer como ficarão as usinas nucleares e a de Itaipu.
— O impacto da privatização das usinas cotizadas na conta de luz está calculado em alta de 7%. Tirando o sistema de cotas, o preço vai subir. Será que se houver uma mudança fantástica na gestão, seria possível enxugar o preço?