A cúpula tucana indicou ontem que a situação política do presidente Temer está cada vez mais grave. O presidente do PSDB, Tasso Jereissati, disse que o país está “chegando à ingovernabilidade”, e que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, reúne “condições de juntar os partidos ao redor do mínimo de estabilidade de que o país precisa”. Maia afirmou que a denúncia da PGR contra Temer “é grave e tem de ser respeitada”. Enquanto isso, o governo se esforça para trocar integrantes da CCJ, onde hoje não teria os 34 votos para rejeitar a denúncia. Um deputado do PMDB e dois do Solidariedade já foram substituídos. PTB e PR vão fazer o mesmo. O deputado cassado Eduardo Cunha, do grupo de Temer, começou a negociar acordo de delação premiada. -BRASÍLIA- Em uma mudança de discurso que lembrou o tom usado pelo então vice-presidente Michel Temer, quando, em meio à crise que atingia Dilma Rousseff disse que era preciso alguém para “reunificar a todos”, a cúpula do PSDB lançou ontem, simbolicamente, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), como presidenciável. Depois de mais de um mês flertando com o rompimento, o presidente interino do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), afirmou que Maia reúne as condições necessárias para promover estabilidade no país. Tasso destacou que o governo de Michel Temer está “chegando na ingovernabilidade” e disse ainda ver espaço para uma renúncia negociada do presidente da República.
— Se passar a licença para a denúncia, Rodrigo Maia tem condições, até pelo cargo que ele exerce, de presidente da Câmara, de juntar os partidos ao redor de um nível mínimo de estabilidade para o país. Não tenho a capacidade de dizer se Temer é culpado ou não, a Justiça vai fazer isso, mas tenho capacidade de dizer que estamos chegando à ingovernabilidade. Tem que haver agora um acordo para dar estabilidade mínima para se chegar a 2018 — afirmou Tasso, comparando a situação de Temer com a de Dilma Rousseff antes do impeachment.
Caso a Câmara aceite a denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o Supremo Tribunal Federal (STF) determine o afastamento de Temer do cargo, quem assume a Presidência provisoriamente é Rodrigo Maia.
Na quarta-feira, outros tucanos, como o líder na Câmara, Ricardo Tripoli (SP), e o senador Cássio Cunha Lima (PB), já haviam defendido que o desembarque do governo se tornara inevitável. Em uma forte sinalização de que já vislumbra um novo governo, sem Michel Temer, o senador Tasso fez um esboço do que seria a composição ideal: manter a equipe econômica e os partidos que hoje sustentam a base, mas com perfis “intocáveis” em relação à postura ética.
— A equipe econômica tem que ficar, e o governo tem que ser o mais próximo possível do intocável na postura ética — defendeu.
Tasso reforçou o discurso pelo desembarque do governo e afirmou que “os fatos” devem levar à saída do PSDB da base de Temer. O tucano falou ainda sobre a possível delação que o ex-presidente da Câmara, o deputado cassado Eduardo Cunha, deve fazer. Disse que, se isto de fato ocorrer, será um semestre “terrível” para todos. Para Tasso, mesmo que o senador Aécio Neves (PSDBMG) volte a assumir a presidência do partido, a permanência na base não deve ocorrer.
— Ninguém faz pressão contra os fatos. Os fatos estão aí e está na hora de encontrarmos estabilidade. Não dá mais para vivermos dessa maneira — pontuou o presidente tucano.
O senador argumentou que não vê, hoje, nenhum partido com tendência mais pró do que contra o governo, inclusive o PMDB. Tasso disse que as conversas com o DEM e os demais partidos da base têm sido contínuas e que todos terão de se render aos fatos.
No PSDB, alguns dos principais caciques, como o prefeito de São Paulo, João Doria, e o governador do estado, Geraldo Alckmin, além do senador Aécio Neves (MG), vinham defendendo a manutenção do apoio ao governo Temer. Entre os parlamentares do partido, no entanto, o clima é de ampla deterioração.
— Não conheço nenhum partido, a começar pelo PMDB, que esteja mais governista do que pelo desembarque. Qual partido não está refluindo? O relator da denúncia na CCJ, que é do PMDB, deve dar um voto pelo afastamento de Temer. Quer coisa mais significativa que isso? — questionou Tasso.
DECISÃO SOBRE AÉCIO SÓ NA SEMANA QUE VEM
A esperada decisão no PSDB sobre a saída definitiva de Aécio da presidência do partido deve ocorrer apenas na próxima semana. Tasso Jereisatti disse que irá conversar na segunda-feira com Aécio. O senador cearense pressiona por uma solução definitiva e a expectativa era que, após se livrar do processo de cassação do mandato no Conselho de Ética, ontem, Aécio fizesse um gesto aos correligionários e tomasse a iniciativa de deixar a presidência do partido. O senador disse que, se continuar no cargo, passará a defender de forma intensa a implantação do parlamentarismo no país.
— Na semana que vem, antes do recesso, precisa ter uma solução definitiva. O presidente é ele (Aécio), ele é que tem de resolver. Se ele resolver ficar, ele tem as condições para isso. Aécio passa por uma crise, e quem tem de definir o tamanho da crise é ele. Hoje existem cerca de 30 senadores e não sei quantos deputados e ministros numa situação parecida. Quando ele estava afastado, era diferente mas, hoje, todos os senadores são iguais. O importante é não ficar nessa indefinição — afirmou Tasso.
PLANALTO TENTA CONTER MOVIMENTO TUCANO
Interlocutores de Temer minimizaram a possibilidade de deputados do PSDB votarem em bloco a favor da denúncia de corrupção passiva que Temer enfrenta na Câmara, tanto na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) quanto no plenário.
De acordo com as contas da bancada, dos sete integrantes do partido na Comissão, apenas um deve votar contra a denúncia. Assessores próximos a Temer dizem que a bancada do PSDB na Câmara representa apenas 10% da Casa e, que mesmo nesses 10%, há uma divisão, já que nem todos são favoráveis a dar prosseguimento à denúncia. Por essa lógica “matemática” do Planalto, o governo teria então uma baixa de 5% dos votos dos tucanos.
— O PSDB não é maior do que a Câmara, ele é 10% da Câmara, sendo que neles ainda há divisão interna. É um problema para o governo do tamanho de 5% — disse um aliado do presidente.