Após quase quatro anos, o juro de referência no Brasil voltou ao patamar de 1 dígito. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou na noite desta quarta-feira, 26, a redução da taxa Selic em 1 ponto porcentual, de 10,25% para 9,25% ao ano. O corte foi o sétimo consecutivo e coloca a taxa no menor nível desde agosto de 2013, ainda no primeiro governo Dilma Rousseff.
Com a decisão, que era amplamente esperada pelos economistas do mercado financeiro, o BC manteve o ritmo de reduções da Selic, a despeito das preocupações em torno do governo de Michel Temer. Mais do que isso, a instituição deixou as portas abertas para a manutenção do atual ritmo de cortes, se o cenário político e econômico permitir.
Pressionado pela denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), o presidente Michel Temer luta para manter apoio na Câmara e, ao mesmo tempo, para tocar as reformas no Congresso. O principal desafio é a reforma da Previdência, considerada fundamental para o reequilíbrio das contas públicas.
Na decisão de hoje, os dirigentes do BC argumentaram que, até o momento, os efeitos de curto prazo do aumento das incertezas em relação às reformas “não se mostram inflacionários nem desinflacionários”. Na prática, a instituição indicou que a crise política, que prejudica as reformas, ainda não alterou de forma substancial o cenário: ela pode ser prejudicial para o controle de preços, por um lado, mas também acaba atrasando a recuperação da atividade, por outro. O resultado é que o espaço para o reajuste de preços ao consumidor segue reduzido.
No comunicado que acompanhou a decisão, o Copom informou que a projeção para o IPCA – o índice oficial de inflação – em 2017 passou de 3,8% para 3,6%. Para 2018, foi de 4,5% para 4,3%. As projeções levam em conta taxas de juros e de câmbio variáveis. A meta de inflação perseguida pelo BC em ambos os anos é de 4,5%.
Com a inflação sob controle, a instituição decidiu manter o ritmo de cortes da Selic em 1 ponto.
“O Comitê entende que a convergência da inflação para a meta de 4,5% no horizonte relevante para a condução da política monetária, que inclui o ano-calendário de 2018, é compatível com o processo de flexibilização monetária (corte de juros)”, disseram os dirigentes do BC.
O futuro do ciclo, porém, segue nebuloso. O Copom deixou claro que o valor final da Selic dependerá do processo de reformas na economia. Ao mesmo tempo, transmitiu a ideia de que a manutenção do ritmo dependerá da permanência de condições favoráveis. Para o BC, o ritmo de redução da taxa básica será determinado pela evolução da atividade, dos riscos para a economia – inclusive da crise política -, das possíveis reavaliações sobre até onde a Selic pode chegar e das projeções de inflação.
O comunicado do BC, de acordo com o economista da consultoria Capital Economics para mercados emergentes, Neil Shearing, indica que “os problemas enfrentados pelo presidente Michel Temer ainda não levaram o Copom a fazer amplas mudanças nas suas previsões para a economia”. A Capital Economics projeta uma Selic a 8,00% no fim do ano, mas algumas instituições já esperam por uma taxa abaixo deste patamar.
“As projeções de inflação apresentadas no comunicado indicam que, com a Selic a 8%, a inflação em 2018 deve ficar em 4,3%, ou seja, abaixo da meta de 4,5%”, apontou o sócio e gerente de portfólio da Rosenberg Partners, Marcos Mollica. “Isso, portanto, abre espaço para que o ciclo de corte se encerre abaixo dos 8%”, acrescentou.
Para o economista Marco Caruso, do Banco Pine, as projeções do BC para a inflação em 2018 indicam que “há gordura” para Selic cair a 7,25% ao ano ainda em 2017. Em seu menor nível da história, entre o fim de 2012 e o início de 2013, a Selic esteve justamente em 7,25% ao ano.