Marcado para discutir o posicionamento do PSDB em relação ao governo Temer, o encontro de líderes do partido ontem, em São Paulo, provocou desconforto entre tucanos excluídos da reunião, ao mesmo tempo em que o senador Aécio Neves participava do jantar no Palácio dos Bandeirantes. Ao final, após quatro horas de conversa, os 16 líderes tucanos juntados pelo governador Geraldo Alckmin decidiram não decidir nada sobre o desembarque do partido do governo: a decisão de apoiar ou não a denúncia da PGR contra o presidente foi transferida para a bancada parlamentar da legenda na Câmara dos Deputados

Investigado em nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) e afastado da presidência do PSDB desde maio, Aécio viajou a São Paulo para participar da uma reunião da cúpula para discutir se o partido deveria continuar ou não no governo. Além do senador mineiro, estiveram no encontro, no Palácio dos Bandeirantes, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o presidente em exercício do partido e também senador, Tasso Jereissati (CE), entre outros.
Aécio recuperou seu mandato de senador no fim de junho, após ficar cerca de 40 dias afastado por determinação do ministro do STF Edson Fachin, em razão das delações premiadas do grupo JBS. O senador é investigado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por ter sido gravado pelo empresário Joesley Batista pedindo R$ 2 milhões para sua defesa na Lava-Jato. Além disso, executivos da empresa disseram que pagaram pelo menos R$ 60 milhões a Aécio em 2014. O tucano nega todas as acusações.
O desconforto entre tucanos excluídos do encontro foi divulgado em carta pelo prefeito de Manaus, Artur Virgílio, em que disse que não seria um “ato de coragem” do partido abandonar o governo.
“Minha definição pessoal é clara: ‘desembarcar’ do governo, a pretexto de continuar apoiando as reformas — na verdade abrindo espaço real para o impedimento do presidente — não soaria como ato de coragem. Sinceramente, não! Definitivamente não!”, escreveu o tucano.
Virgílio abriu a carta questionando os critérios de escolha dos convidados da reunião. “Fiquei sem entender os critérios de convocação para a reunião. Tempo de militância e lealdade ao PSDB? Número de mandatos parlamentares e executivos? Passagem por estratégico ministério, por liderança de governo e por oito anos consecutivos de liderança de oposição encarniçada ao presidente mais popular de nossa história republicana? Direção do partido por três anos inteiros? Solidariedade a tantos companheiros, alguns certamente presentes à sessão desta noite, em momentos delicados de suas vidas políticas, cercados pelo barulho ensurdecedor da omissão, sempre cômoda, de tantos?”, ironizou o prefeito, que é a favor da manutenção do apoio a Temer.
Mesmo os mais enfáticos contra a permanência na base aliada admitem que é pouco provável, neste momento, um desembarque total do partido. Parlamentares que na semana passada defenderam a saída do governo acreditam que dificilmente haverá uma decisão partidária sobre a relação com Michel Temer.
A tendência é que algumas lideranças do partido continuem a criticar o governo Temer, como o presidente interino da legenda, senador Tasso Jereissati (CE), o senador Cássio Cunha Lima (MG) e alguns deputados, enquanto outra parcela do PSDB manterá o apoio.
Os tucanos de São Paulo devem adotar uma posição mais crítica em relação ao governo e há, inclusive, expectativa de que o prefeito de São Paulo, João Doria, defenda o desembarque. Mas os ministros do partido, provavelmente, permanecerão em seu cargos.
A lista de presentes à reunião no Palácio dos Bandeirantes inclui o ex-ministro José Serra; os líderes do partido no Senado, Paulo Bauer (SC), e na Câmara, Ricardo Tripoli (SP); os senadores Cássio Cunha Lima (PB), José Anibal (SP), os deputados Silvio Torres (SP) e Samuel Moreira (SP); os governadores Marconi Perillo (Goiás), Beto Richa (Paraná), Reinaldo Azambuja (Mato Grosso do Sul) Pedro Taques (Mato Grosso); e o prefeito de São Paulo, João Doria.
FH CONSIDERA SITUAÇÃO “MUITO RUIM”
Ainda ontem, a assessoria do ex-presidente Fernando Henrique confirmou que ele foi procurado por Temer. Alegando falta de tempo — além do jantar, o ex-presidente viaja hoje para a Europa —, o tucano não deveria ter uma conversa com o presidente.
Ao blog da jornalista Andréia Sadi, no G1, FH considerou “muito ruim” a situação política atual, mas disse que não teria como antecipar uma posição oficial do partido. O ex-presidente comentou declaração do presidente interino do PSDB, Tasso Jereissati, de que a crise estava insustentável a cada dia, e que a saída do partido do governo seria inevitável. “Não tenho como antecipar a posição do partido. Mas ele expressou sentimento da Câmara, sentimento da sociedade, mas não o de todos os governadores”, disse Fernando Henrique.