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Poder
À Época, Joesley detona: “Temer sabia de tudo. Nunca foi cerimonioso com dinheiro”
Em doze páginas, a revista Época apresenta entrevista ping-pong com o empresário Joesley Batista, anunciada na capa. A entrevista aconteceu na quinta-feira, durou quatro horas e foi precedida de intensas negociações. Foi feita pelo jornalista Diego Escosteguy. Na edição da entrevista, as frases de Joesley em destaque são: "Sempre que Temer me chamava, eu sabia que ele ia me pedir alguma coisa"; "Eduardo Cunha pediu R$ 5 milhões para barrar uma CPI. Eles operam assim"; "Eu tentava fazer operações na Caixa, o operador Lúcio Funaro descobria e vinha falar: 'vai ter os 3%, né?'"; "O ex-ministro Geddel Veira Lima queria saber se eu estava cuidando dos dois, Cunha e Funaro. O presidente estava preocupado"; "Dilma Rousseff pediu R$ 30 milhões para a campanha de Pimentel. Eu dei"; "A corrupção institucionalizada começou com o PT"; "Aécio Neves tentou comprar o PR por R$ 35 milhões. O PT chegou antes". Na primeira resposta de sua entrevista, Joesley diz que "tudo a que estamos assistindo hoje se iniciou há dez, 15 anos". Ele afirmou que começaram a surgir grupos no Brasil com divisão de tarefas: "um chefe, um operador, um tesoureiro". E que esse esquema se instalou, na forma de núcleos, nas estatais, nos fundos de pensão e nos ministérios. "E o mais importante: a corrupção está no andar de cima, nas autoridades, não está no andar de baixo", assinalou. "Quando você se vê dentro de um ministério, tratando com um ministro, que é a sua autoridade, falando de dinheiro ilícito, você começa a achar normal", disse ele. "O que aconteceu no Brasil foi a proliferação das organizações criminosas. No começo eram dezenas. Depois viraram centenas", contabilizou Joesley. Segundo ele, "o Lula e o PT institucionalizaram a corrupção. Houve essa criação de núcleos". Ele citou exemplos de pagamentos de propinas no Ceará e no Mato Grosso, para a obtenção de incentivos fiscais garantidos em lei. Falou também do então ministro Guido Mantega e os empréstimos obtidos pelo grupo JBS no BNDES: "Olhe o caso do Guido, do PT: 'O BNDES comprou ações e investiu na sua empresa. Como você não vai me dar dinheiro?'". Ressalvou, porém, que nunca tratou de propinas com o então presidente Luciano Coutinho ou com qualquer funcionário interno do BNDES. "Todas as minhas relações no BNDES eram absolutamente republicanas", frisou. Joesley contou que tentou ter uma relacionameto comercial normal com a Caixa. "Nunca paguei propina ao corpo técnico da Caixa", disse. Mas relatou que, ao pedir financimento junto ao FI-FGTS, foi descoberto por Fabio Cleto. Em seguido, o operador Lúcio Funaro entrou em sua vida, a mando do então deputado Eduardo Cunha, pedindo 3% de propina por qualquer aprovação de financiamento no FI-FGTS. "Se não paga, alguém pede vista. Pronto", resumiu. Sobre o BNDES, agregou que "quando era efetivado o negócio, saia uma parcela, eu creditava o valor da propina na conta do Guido na Suíça. Só que a abordagem era menos agressiva (em relação à feita por Funaro)". Ele defendeu o grupo J&F com a tese de que, se não houvesse pagamento de propina, não conseguiria trabalhar com o estado brasileiro. "Quem precisou do Estado em algum momento teve de pagar propina a algum político", apontou. Joesley contou com que combinou com Cunha e Funaro a quem deveria pagar propinas no caso de ele serem presos, e ambos indicaram pessoas de confiança. A essa pessoas, após a prisão da dupla, Joesley manteve o compromisso de pagar mensalidades destinadas às famílias. O mensageiro para recados de Cunha e Funaro a Joesley era, segundo o delator, o ministro Geddel Vieira Lima, que afirmava a ele que o presidente Temer estava preocupado com a manutenção dos pagamentos. "O presidente sabia de tudo. Eu informava o presidente por meio de Geddel", contou. Joesley afirma que procurou a delação premiada como forma de denunciar e combater esse esquema. Ele define o presidente Temer como o número 1 da corrupção, e Aécio Neves, que teve 48% dos votos em 2014, como número 2. Para atacar a ambos, arquitetou sua delação. Ele garantiu que não houve edição da fita grava da conversa com Temer. "Zero. Zero. Gravamos e entregamos. Podem fazer todas as perícias do mundo", assegurou. "É duro, doído, forte" gravar uma pessoa, definiu ele. "Nunca havia gravado ninguém na minha vida". Não gravou Lula porque "nunca tive conversa não republicana com o Lula. Zero. Eu tinha com o Guido". Sobre Temer, Joesley conta que o conheceu em 2010 e "esse negócio de dinheiro para campanha aconteceu logo no iniciozinho. O Temer não tem muita cerimônia para tratar desse assunto. Não é um cara cerimonioso com dinheiro". Numa vez, narrou, Temer pediu a ele R$ 300 mil para fazer campanha pela internet antes do impeachment, preocupado com sua própria imagem. Também pediu "mensalinhos" a pessoas que indicava. Confirmou que Temer usou o jatinho da JBS. "É dentro desse contexto: 'eu preciso viajar, você tem um avião, me empresta aí'. Acha que o cargo já o habilita. Sempre pedindo dinheiro", resssaltou. Joesley frisou que Temer era o chefe da "Ocrim" que contava com Cunha e Funaro. "Essa é a maior e mais perigosa organização criminosa deste país. Liderada pelo presidente", cravou. A respeito da saúde financeira da JBS, o empresário foi enfático, na conclusão da entrevista: "Não vamos quebrar. Estamos numa jornada. A colaboração foi a primeira etapa. A leniência, a segunda. E agora estamos na terceira etapa. Vamos fazer desinvestimentos suficientes para virar essa página".
Polí­tica
Depois de PSDB ficar com Temer, FHC diz que ele perdeu “legitimidade” e pede eleições; jogo duplo escancarado
Mesmo diante da permanência do PSDB no governo de Michel Temer (PMDB), condicionada pelo partido ao surgimento de fatos novos que aprofundem a crise política, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso entende que falta “legitimidade” ao presidente e sugere que, em um “gesto de grandeza”, o peemedebista antecipe as eleições gerais, previstas para outubro de 2018. As posições do tucano, contrárias à decisão tomada pelos demais caciques do partido, estão expostas em uma nota. Para FHC, embora a permanência de Temer no Planalto seja “legal e constitucional”, o país vive uma “quase anomia”, isto é, um estado de ausência de regras, e “falta o que os políticólogos chamam de ‘legitimidade’, ou seja, reconhecendo que a autoridade é legítima consentir em obedecer”. “Não havendo aceitação generalizada de sua validade, ou há um gesto de grandeza por parte de quem legalmente detém o poder pedindo antecipação de eleições gerais, ou o poder se erode de tal forma que as ruas pedirão a ruptura da regra vigente exigindo antecipação do voto”, afirma o ex-presidente. O ex-presidente entende que os partidos devem levar em conta as “chances econômicas” do Brasil e “os 14 milhões de desempregados” ao se posicionarem diante da crise política. “Ou se pensa nos passos seguintes em termos nacionais e não partidários nem personalistas ou iremos às cegas para o desconhecido”, completa FHC. Ao citar especificamente o PSDB, FHC diz que caso continue a “desconstrução continuada da autoridade” do presidente, aliada a possíveis tentativas de obstrução de Justiça, não vê como o partido possa continuar no governo Temer. Em referência à declaração que deu no ano passado – de que a “Ponte para o Futuro”, slogan que Temer e PMDB deram ao governo, era na verdade, uma “pinguela” -, FHC afirma que “preferiria atravessar a pinguela, mas se ela continuar quebrando será melhor atravessar o rio a nado e devolver a legitimação da ordem à soberania popular”. O ex-presidente pondera, contudo, que a maior responsabilidade não cabe às legendas, mas a Temer, “que decidirá se ainda tem forças para resistir e atuar em prol do país”.
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Três preocupações – por João Guilherme Vargas Netto
Indiquei em minha última coluna aquelas que considero as três preocupações decorrentes do novo patamar alcançado por nossa resistência com a vitória da jornada do 28 de abril. A primeira delas e essencial, é a continuidade do esforço pela unidade de ação, coisa que ficou sacramentada pela reunião das centrais sindicais (confirmando a nota conjunta para o 1º de maio unitário) que determinou um calendário de ações para o mês de maio. A segunda é a determinação das táticas a serem adotadas nesta fase da luta em que o Congresso Nacional tem um papel relevante e em que a continuidade da pressão sobre os parlamentares deve ser efetivada. Para os senadores eu recomendo que as entidades organizem grupos de ação qualificados para o relacionamento com cada um dos 81 senadores em Brasília e em suas bases, levando-se em conta suas características individuais (estado que representa, partido a que pertence, posição pública afirmada, influência em comissões, peculiaridades de sua atuação etc). Na Câmara, visando os deputados, recomendo além das visitas em Brasília, a continuidade das denúncias dos que têm votado contra nós, com campanhas localizadas em suas bases, aplicando-se desde o escracho a alguns deles até a utilização maciça de outdoors contundentes e as visitas domésticas. Em terceiro lugar observo que a comunicação sindical pode e deve melhorar. Quando se analisa o sucesso da jornada do 28 de abril não se pode deixar de registrar o relativo atraso de nossa comunicação (não existiu, por exemplo, uma central coordenadora da comunicação) e a necessidade premente de continuar a batalha pela compreensão da greve e das manifestações. Sugiro que todo material sindical (impresso ou eletrônico) continue repercutindo a jornada, divulgando em série a participação de companheiros e companheiras da base no dia 28 (o que você fez durante a jornada do dia 28?), valorizando o orgulho de classe e o sentimento de vitória. A luta sindical é contínua e para ter sucesso deve ser unitária, inteligente e compreensível para milhões. João Guilherme Vargas Netto, consultor sindical
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Vitória! Vitória! Vitória! – por João Guilherme Vargas Neto
O grande feito da jornada do 28 de abril (e das comemorações do 1º de Maio, que este ano foram o seu prolongamento) foi demonstrar perante o povo brasileiro – e consequentemente perante o mundo político – a relevância do movimento sindical dos trabalhadores. O êxito da greve geral foi construído paulatinamente, com inteligência e persistência, desde que se recuperou a unidade de ação do movimento e se adotou a linha unitária de resistência às “deformas”. A capacidade estrutural de mobilização do movimento sindical trouxe para si o apoio de vários movimentos sociais, religiosos, jurídicos e de intelectuais de peso. A nação acordou. Mudou-se o patamar de resistência e as confederações sindicais já começaram, hoje mesmo, a planejar seu trabalho de convencimento dos senadores em relação à votação da “deforma” trabalhista. A jornada do dia 28 teve confirmadas quatro características essenciais: foi forte, nacional, unitária e de resistência. A bola preta ficou com a repressão no Rio de Janeiro e em Goiás e com as despudoradas manifestações públicas do prefeito de São Paulo e do ministro da Justiça. Trava-se agora a guerra da compreensão do que houve. Nesta guerra, a verdade (que é a nossa) enfrenta a pós-verdade (de nossos adversários). A nossa verdade tem a força de pelo menos três pilares de opinião: os milhões que fizeram as greves e as manifestações, os milhões que as assistiram ao vivo com simpatia e até mesmo os milhares que as atacaram furiosamente nas redes sociais. A luta continua e suas exigências são o reforço persistente de nossa unidade, o estabelecimento de táticas adaptadas à nova situação e o fortalecimento da comunicação sindical. O grande herói foi o povo trabalhador brasileiro que reconhece a relevância do movimento sindical. João Guilherme Vargas Netto, consultor sindical
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Sim, sim; não, não! – por João Guilherme Vargas Netto
Escrevo na véspera do dia 28 de abril, mas é como se escrevesse depois de amanhã. No fim da jornada do 28, milhões de brasileiros poderão dizer, como o poeta Manuel Bandeira: “O meu dia foi bom, pode a noite descer. Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar”. É o dia da vitória do esforço unitário e da mobilização sobre o desmanche social e o retrocesso. As coisas ficam mais simples quando uma palavra de ordem as sintetiza: nenhum direito a menos! Foi o que se ouviu na voz sonora das ruas e no silêncio das fábricas. Haverá uma forte combinação de greves e manifestações demonstrando ao Brasil – um Brasil que se encontrava bestializado – a necessidade da resistência e de outro rumo. Com a persistência unitária das centrais sindicais e das confederações, federações e sindicatos dos trabalhadores, o Brasil que não está satisfeito se manifestou contra as “deformas”, abrangendo todos os setores sociais, religiosos, jurídicos e da intelectualidade defensores da justiça social. Ainda não é hora de se pensar o dia seguinte porque ainda é hora de ampliar o protesto e garantir o êxito da jornada de lutas, verificando cada pormenor relevante para o sucesso. Mas, com a vitória anunciada, nada continuará como antes e novas perspectivas vão aparecer. O que parecia sólido, determinado e agressivo será desmanchado no ar e a sadia vigilância popular será exercida sobre os partidos, sobre os deputados e senadores, sobre os políticos e sobre os empresários interesseiros, hipócritas, corruptos e desmoralizados. A jornada do dia 28 merece uma citação bíblica incontornável: Seja o seu sim, sim; seja o seu não, não. Todo o resto vem do maligno. João Guilherme Vargas Netto, consultor sindical
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Data histórica – Por João Guilherme Vargas Netto
Em 1891 uma polêmica agitou os círculos operários e socialistas na Europa. Naquela época tratava-se de fixar o 1º de maio como data internacional a ser comemorada em todos os países. Mas naquele ano os socialistas alemães resolveram que comemorariam o 1º de maio (que caía em uma sexta-feira) no dia 3 de maio, um domingo. As razões alegadas por eles foram práticas, porque naquela época, o 1º de maio não sendo feriado, sua comemoração implicava em faltar ao trabalho e em perdas salariais e produziria confrontos indesejados com a polícia e a repressão patronal. Frederico Engels, o grande conselheiro dos socialistas, aprovou a ideia e polemizou em cartas com Paulo Lafargue dirigente francês e genro de Carlos Marx que insistia no caráter simbólico da manifestação simultânea no dia 1º de maio. Para Engels, a obediência estrita naquele ano à data resultava no esgotamento das forças financeiras dos sindicatos alemães e, como consequência, em um desencorajamento geral. “Confesse que sairia muito caro manter o efeito teatral da demonstração simultânea”, diz ele em carta de 10 de fevereiro. Os alemães manifestaram no domingo, mas a data do 1º de maio passou a ser na história a data universal de comemoração do Dia do Trabalhador e um marco na luta pela jornada de trabalho de oito horas diárias. (Ler a reedição, com o patrocínio das centrais sindicais e de 30 outras entidades, do livro de José Luiz Del Roio – 1º de maio – sua origem, seu significado, suas lutas, de 2016.) Apresento hoje em minha coluna essa informação adicional porque em 2017, para nós brasileiros, embora se mantenham as comemorações no feriado do 1º de maio (em particular as já tradicionais concentrações da Força Sindical na Praça Campo de Bagatelle), o verdadeiro significado histórico das lutas do 1º de maio se encarna no dia 28 de abril (por coincidência também uma sexta-feira como o 1º de maio em 1891), dia do “nenhum direito a menos”. O 28 de abril deverá se inscrever na lista das efemérides históricas dos trabalhadores brasileiros como o 21 de abril, dia de Tiradentes e do metalúrgico, como o 21 de julho de 1983, dia da grande greve geral e o próprio 1º de maio. João Guilherme Vargas Netto, consultor sindical
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Nossa força – Por João Guilherme Vargas Netto
De hoje até o dia 28 o que se deve fazer é preparar com cuidado e empenho o sucesso daquela jornada, sem divisões, sem vacilações, sem confusões. A conjuntura tem evoluído favoravelmente à nossa resistência e obrigado o governo a anúncios sucessivos de concessões e mudanças nas “deformas”. Até a ameaça intempestiva de que na “deforma” trabalhista seria suprimido o imposto sindical teve que ser desmentida pelo próprio presidente da República, preocupado pelos efeitos desta provocação. A “deforma” previdenciária levou um tiro certeiro da CNBB que denunciou a falta de clareza e de lisura do governo sobre os números e os problemas da Previdência. A própria aprovação e promulgação da famigerada lei da terceirização irrestrita fez cair a ficha para milhões de jovens trabalhadores. A avidez dos empresários e a desfaçatez de seus anúncios mascaram a insegurança jurídica e excitam os ânimos. Em cada cidade brasileira, sob o impulso do movimento sindical e dos movimentos sociais, pratica-se o esquenta para o dia 28. São milhares de pequenos atos significativos, além de propaganda e denúncias públicas. Cada sindicato prepara-se, a seu modo, para a grande data. Os prédios sindicais são ornamentados com faixas e cartazes e todos os serviços sindicais – com especial atenção à comunicação – são acionados e preparados para o grande dia. As jornadas anteriores, do dia 15 e do dia 31 de março, foram dois grandes testes nos quais se demonstrou a relevância do movimento sindical e dos movimentos sociais e a vontade de se manifestar da população. Para nossos adversários o clima não está ameno, pelo contrário, é um período de ventos e tempestades; o primeiro grande efeito das últimas delações é a completa paralisia na condução das “deformas”. O que já não era sólido desmancha-se ainda mais no ar. É preciso que mantenhamos nosso rumo unitário e nosso empenho mobilizador. A força demonstrada no dia 28 de abril será nossa força no futuro. João Guilherme Vargas Netto é consultor sindical
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As mobilizações avançam e definem o futuro – Por João Guilherme Vargas Netto
Três semanas antes do 28 de abril os esforços prioritários do movimento sindical e dos movimentos sociais são a preparação da greve, garantindo as maiores mobilizações populares contra as “deformas”. Este processo social de resistência vai se avolumando com as diferentes iniciativas de esquenta apontando para o êxito da jornada. Dois processos simultâneos dão conta, sob dois aspectos, dessa evolução. O primeiro deles é o desenvolvimento semântico do nome que se dá ao 28 de abril. Coexistem as expressões “greve geral”, “greve nacional”, “greve”, “greve com manifestações”, “paralisações” e “dia nacional de mobilizações”. Com o acúmulo das iniciativas a verdadeira definição do protesto vai se afirmando paulatinamente; as consciências vão se esclarecendo, as possibilidades vão se concretizando e as estruturas se organizam. O nome virá como consequência. Outro aspecto, importantíssimo para a definição do que deve ser garantido, é a forma dos protestos do dia 28. Se a greve geral for efetiva – principalmente nas fábricas e locais de trabalho e nos transportes públicos – podemos ter como modelo a data histórica da greve do 21 de julho de 1983 quando, nas palavras de Joaquim dos Santos Andrade, os operários de São Paulo transformaram a quinta-feira de trabalho em um domingo sereno, tal o efeito das paralisações. Em paralelo podem coexistir no dia 28 em diferentes cidades as greves localizadas e manifestações maciças ou passeatas nos logradouros tradicionais. As direções devem extrair as lições da recente greve dos trabalhadores argentinos, apesar do quase bloqueio midiático sobre ela. De qualquer maneira, desde que se mantenha o empenho unitário mobilizatório, o nome será consagrado pela jornada e seu formato será definido – na semana que precede o protesto – pelas direções sindicais e sociais unidas. Um dos efeitos já atestados do impulso para o dia 28 é a dança de posições e de recuos do governo sobre suas “deformas”, em especial a “deforma previdenciária”. Os deputados, alvoroçados, começam a sentir a pressão de seus nomes e retratos sendo divulgados aos milhares. Imaginem só o pandemônio que se instalará com o êxito da jornada de 28 de abril, que gritará, a plenos pulmões, “nenhum direito a menos”. João Guilherme Vargas Netto é consultor sindical
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Judas, 30 moedas e a febre amarela – Por João Guilherme Vargas Netto
Não me decidi nunca sobre o que achava pior, se a traição de Judas ou a baixa remuneração recebida por ele. Esta cogitação me vem à mente com o estardalhaço criado, no sábado passado, pela manchete principal da Folha. Segundo ela, um conjunto restrito de dirigentes sindicais e parlamentares negociava com o Governo o afrouxamento da luta sindical contra suas “deformas” em troca de beneplácitos inalcançáveis sobre os recursos à disposição dos sindicatos. Como acontece nestes casos, depois da denúncia e do escândalo, choveram explicações e desmentidos. Alguns mais inábeis do que espertos, procuraram explicar o inexplicável dizendo aos quatro ventos das redes sociais que negociaram sim, mas não a troca dos direitos dos trabalhadores pela garantia de recursos aos sindicatos. Negociaram então o quê? Não se lembraram da lição de que a mulher de César deve, também, parecer honesta. A maioria do movimento sindical, até mesmo os involuntariamente atingidos pela denúncia, protestou firme e decididamente. Embora a grande mídia não tenha dado prosseguimento ao assunto (por enquanto...) a justa indignação do movimento sindical se fez notar pela multiplicidade de notas, manifestos e posicionamentos contra o estelionato. Tudo isso acontece quando o movimento sindical se reagrupa visando o 28 de abril e percebe, com a vitória no dia 15 de março e frente à calamidade da aprovação apertada da terceirização irrestrita (apesar dos corpos moles), que é possível derrotar, no fim das contas, as iniciativas do Governo. A conjuntura mudou de caráter com o debate desinterditado e com o afrontamento entre “fora Temer” e “fora Dilma” sendo substituído pelo da imensa maioria que compreende o esbulho e reage contra ele e a minoria que oportunisticamente se aproveita do desmanche social procurando tirar vantagens. A ingenuidade e o despreparo dos “negociadores” ficaram escancaradas quando a matéria, plantada com certeza pelo Palácio do Planalto, deu conta no seu final de que o Governo não acreditava na possibilidade da entrega da mercadoria adulterada prometida. A denúncia da Folha serviu para o movimento sindical como uma vacina contra a febre amarela dos candidatos a Judas fodidos e mal pagos. É com tristeza que registro que o companheiro Pavão não lerá esta coluna. Descanse em paz. João Guilherme Vargas Netto, consultor sindical
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Relevância sindical – por João Guilherme Vargas Netto
A cada dia sua aflição. Hoje, terça-feira, o grande desafio para o movimento sindical é barrar a pressa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, em votar o projeto de terceirização, rompendo os acordos solenes com as direções sindicais que já haviam impedido a votação intempestiva no início do mês. Qual a explicação para a “nova” pressa de Rodrigo Maia? Ela é dupla. Rodrigo Maia, como também todos os defensores das reformas pretendidas pelo governo, tem medo dos efeitos da vitória de nossa unidade e mobilização no dia 15 de março, que semeou confusão e pânico nas cúpulas situacionistas levando-as a modificar os cronogramas para as discussões e votações das reformas. E, como consequência, pretende “testar” o alinhamento e a fidelidade dos deputados da base governista às determinações do mercado para aprovar o monstro. O resultado será um só: se aprovado hoje esse projeto de terceirização legaliza-se nas relações do trabalho no Brasil aquilo que o senador Romero Jucá chamaria de suruba, ou seja, legaliza-se a precarização, a informalidade, a desorganização e a própria criminalidade (tome-se, por exemplo, a constatação do vínculo entre terceirização e trabalho escravo). O projeto corresponde no mundo do trabalho a um projeto que na vida partidária legalizasse o caixa 2 e anistiasse os políticos criminosos. Aprovado este projeto, que o jornal Valor qualifica de “terceirização indiscriminada”, nem mais seria necessária uma reforma trabalhista porque a desorganização nas relações do trabalho e na representação sindical seria já estruturante, passe o paradoxo. As direções sindicais e os ativistas, também às pressas, dirigem-se a Brasília para o Congresso Nacional, onde pretendem impedir o desvario apressado do presidente da Câmara. Elas o fazem fortalecidas pela vitória das manifestações do dia 15, merecedora da orgulhosa e afirmativa matéria paga publicada pelas centrais sindicais nos principais jornais. Compreendem também que para a ação sindical consequente, coerente, unitária e efetiva não há luta vencida definitivamente, não há vitória final e a resistência é processo permanente. O fundamental é estar sintonizado com as expectativas das bases e fazer todo o possível para, perante elas e perante a sociedade (e os políticos), demonstrarem a relevância do movimento sindical. João Guilherme Vargas Netto, assessor sindical