O chamado Custo Unitário do Trabalho (CUT), indicador que mede a relação entre a folha de salários e o valor da produção física, subiu 1,2% no ano passado, menor alta desde 2010, quando havia aumentado 1,1%. Em 2015, a medida que representa a quantidade de trabalho usado para produzir uma unidade de produto avançou 20,6%.

Os cálculos são da MCM Consultores e consideram a folha de pagamento nominal da indústria, com base em dados da extinta Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário, do IBGE, e da massa de rendimentos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Usando a folha de pagamentos real, o CUT teve redução de 7% em 2016, depois de ter crescido 10,6% no ano anterior. Ambas as medidas são em moeda local.

A principal explicação para o movimento de alívio é a deterioração do mercado de trabalho, afirma Bernardo Dutra, economista da MCM e autor dos cálculos. “Os movimentos do CUT, tanto na época de alta quanto de baixa, são explicados pela massa de rendimentos, uma vez que a produtividade no Brasil cresce muito pouco. ”

Depois de um longo período de pressão – de 2003 a 2016, o custo nominal da hora trabalhada acumulou alta de 213% e o custo real, 40%, ambos medidos em reais – o arrefecimento dos salários está contribuindo para reduzir a inflação, afirma Dutra. Em outro exercício, a consultoria observa que há uma correlação positiva e significativa entre a evolução do CUT e do IPCA acumulado em 12 meses.

De acordo com o estudo, um aumento de salários pode não resultar em reajustes nos preços se a produção cresce a um ritmo superior aos rendimentos. No entanto, o custo do insumo trabalho por unidade de produto subiu acima da variação dos preços da economia até 2015, quando iniciou uma reversão para queda, o que se mantém até hoje, afirma a MCM.

Como o CUT nominal e real funcionam como antecedentes para o IPCA em 12 meses, e a expectativa é que o custo unitário do trabalho permaneça em retração no restante do ano, a consultoria aponta que sinalização é favorável para a inflação. “O CUT vai ajudar o processo de desaceleração”, diz Dutra. O movimento de declínio deve elevar a competitividade da indústria, afirma, contribuindo positivamente para a atividade e para as exportações de manufaturados.

No entanto, a consultoria pondera que o indicador permanece relativamente elevado, devido principalmente ao pífio crescimento da produtividade. Segundo a MCM, a indústria nacional perdeu competitividade em relação a outros países devido à alta do CUT. Enquanto, no Brasil, o indicador real subiu 27% de 2007 a 2016, houve expansão de 5% na zona do euro, e retração de 10% e 5% nos EUA e México, respectivamente. Os dados estão em moeda local.

Em dólares, o custo unitário do trabalho na indústria, em termos nominais, teve redução relevante no ano passado, de 18,2%. Os cálculos são de Nelson Marconi, da Escola de Economia de São Paulo da FGV, e consideram a média em 12 meses do índice, que retira a volatilidade do número mensal.

Para Marconi, a queda do custo dos salários deve continuar, tendo em vista que o mercado de trabalho vai demorar a se recuperar, o que representa um alento para a indústria. O lado ruim dessa tendência é que o CUT não está em declínio por causa do aumento da produtividade da indústria, mas devido à redução do nível de emprego, diz. “Esse movimento não tende a ser duradouro, porque assim que os salários começarem a subir, o CUT vai voltar a crescer.”

Essa também é a avaliação de Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “O custo do trabalho pesa mais sobre a produção quando a trajetória da produtividade não é satisfatória”, disse Cagnin. Nos cálculos da MCM, a produtividade do trabalho na indústria de transformação cresceu apenas 14% de 2003 a 2016.

A baixa taxa de investimento da economia brasileira – que recuou para 16,4% em 2016 – limita a expansão da produtividade e torna o desempenho dos salários o maior determinante do custo do trabalho, aponta o economista. Assim, diz, a redução do CUT é um efeito da crise. Como, no entanto, as indústrias demoraram a começar a ajustar o estoque de empregados, mesmo após a atividade ter entrado em desaceleração, o custo do trabalho ainda tem espaço para recuar mais este ano.

Dutra, da MCM, observa que outros fatores têm influência sobre os custos industriais e diminuem a competitividade da indústria brasileira, como a infraestrutura insuficiente, juros elevados e o ambiente de negócios ineficiente. Por isso, é importante que as reformas estruturais propostas pelo governo sejam aprovadas, afirma.