Carolina Maria Ruy

No clima de discussão sobre jovens suicidas, levantado por um incerto jogo chamado Baleia Azul, assisti com atenção a série da Netflix chamada 13 reasons why. Não é o meu tipo, confesso. Quando estreou Malhação na TV Globo, em 1995, os temas do convívio escolar já, naquela época, não me interessavam mais.Mas, ouvi dizer que o programa abordava temas profundos e apresentava cenas fortes e, como boa curiosa…

Esperei, em 13 possibilidades, ao menos uma que justificasse veicular uma história onde uma moça saudável, esperta e amada não encontrasse outro caminho que não o de tirar a própria vida. O que vi foi um total desperdício. Desperdício de tempo (meu inclusive) e de dinheiro gasto na produção. Desperdício da oportunidade de tratar do tema com mais seriedade, sensibilidade e pertinência. Desperdício, sobretudo, da dor como fonte de aprendizado, transformação, crescimento e sofisticação. Lembram do Drummond: “E o hábito de sofrer que tanto me diverte” (1)?

Mais do que um desperdício, considero um prejuízo para o público adolescente, ao qual a série se volta, apresentar o suicídio como um caminho diante das adversidades. Mesmo levando em consideração a gravidade do estupro, a história não apresenta razões consistentes para tal atitude drástica. A estrutura familiar e as possibilidades que se apresentavam fora do circuito “popular” da escola eliminam qualquer pretenso isolamento e desamor. O fio condutor da história é culpar os outros pelo próprio suicídio. A cada episódio uma fita cassete conta porque cada colega é culpado pelo sofrimento de Hanna. Mas, se cada um tem seus próprios problemas, e se ela buscava o status de pertencer à turma tida como a mais “bacana” da escola, desprezando os vistos como “diferentes”, seu mise en scène fatal foi uma ação egoísta (sobretudo com seus pais), chantagista, mesquinha e altamente vaidosa. Se a intenção era fazer uma série densa sobre os sofrimentos na adolescência, sobre os descalabros da vida social no ensino médio e sobre, enfim, uma pressão que empurre o jovem ao abismo, acho que erraram feio. Banalizaram o ato de acabar com a própria vida colocando-o como uma incapacidade de reagir diante de problemas. O suicídio aparece nesta história como uma relutância em aprender com o sofrimento e, com isso, amadurecer.

Aos pés de algum dos brilhantes versos, pode escolher qualquer um, do poeta Cazuza, as treze horas em resolução 4k de 13 reasons why reduzem-se a pó.

Hanna Backer sofre porque não se sente aceita na turma dos populares da escola. “Eu nunca mais vou respirar; Se você não me notar; Eu posso até morrer de fome; Se você não me amar” são versos que descrevem seus sentimentos. Mas ela não percebe o que o próprio poeta que os escreveu reconhece: exagerado, ele “adora um amor inventado”. “Oh, baby, não chore, foi apenas um corte, A vida é bem mais perigosa do que a morte”, avisa ele.

Cabe aqui também aquele outro grande poeta brasileiro, que cresceu nas chamadas décadas perdidas, com a juventude ameaçada pela AIDS, o Renato Russo. Generoso como só ele, Renato nos joga na cara: “Você me diz que seus pais não te entendem; mas você não entende seus pais; você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo; são crianças como você; o que você vai ser; quando você crescer”.

Sid Vicious e Nancy Spungen, em 1978

As referências aos punks e darks dos anos de 1970 e 1980 são meramente cosméticas, não havendo nenhuma relação entre a dura vida da juventude no contexto pós-industrial da Inglaterra daquela época e a juventude classe média, socialmente amparada, a iGeneration, dos Estados Unidos da América. O casal Sid & Nancy, por exemplo, lembrado em um “baile de fantasias da escola”, passa ao largo da vida escolar e de qualquer possível estrutura familiar. A melancolia da banda Joy Division, na trilha sonora da vida de Hanna e seus colegas, também força a barra. Tanto Sid Vicious quanto Ian Curtis são filhos de uma geração rígida e repressora, encontrando na música agressiva e depressiva uma forma de expressar suas angustias. Nada a ver com o clima da escola. Nada a ver com ter em sua volta adultos dispostos a te ouvir, te compreender, te acolher, a te amparar e a te bancar financeiramente.

Pode-se indagar que, a despeito disso tudo, a depressão é uma doença traiçoeira, que chega sem ser convidada e corrói até a morte. Mas não há nenhum sintoma de depressão na história. Não há apatia, desinteresse, insociabilidade. Ao contrário, Hanna é uma moça forte, que reage bem, se vira bem. É acima da média.

Pensando nisso tudo, nos exageros da série, lembrei de uma crônica muito linda e sensível escrita pelo nosso grande Rubem Alves, A Solidão Amiga. Nela, ele dá uma lição de ser humano:

“Quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem-falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão…”.

Parece que para jovens mimados, abastados, lidar com a dor não é uma opção. Ah, se eles soubessem o que Sartre disse “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”, talvez estivéssemos em outro patamar cultural e moral, onde a vida, com suas ambiguidades e sua complexidade, fosse mais respeitada.

Carolina Maria Ruy, jornalista, coordenadora do Centro de Memória Sindical

(1) Confidência do Itabirano, Carlos Drummond de Andrade